textos sobre a não violência em tempo de guerra: Outubro 2006

textos sobre a não violência em tempo de guerra

sexta-feira, outubro 06, 2006

 

Torcendo pepinos e menin@s


Há 12 anos atrás, quando o meu irmão soube que o seu primeiro rebento seria uma menina, respirou de alívio e disse: "ainda bem, se fosse um rapaz eu não saberia como ensiná-lo a lutar". Só mais tarde é que o meu irmão começou a entender que não temos de ensinar os meninos a lutarem, porque apesar das formas tradicionais de construção de identidade masculina estarem associadas à violência, à competição, ao poder sobre o outro, essa não é a ideologia que muitos de nós, homens e mulheres, desejamos para a "construção" de seres humanos, no actual mundo em que vivemos, mundo cansado de tantas guerras, mortes, violência, chacinas, refugiados, deslocados, pobres.

Outro dia fui a um grande hipermercado e ao passar na secção das crianças, encontrei um espaço gigantesco onde abundava o cor de rosa, com um gigantesco letreiro que gritava: MENINAS. Atravessei o mundo de incontáveis Barbies e suas derivadas; vestidos, acessórios e adereços para bonecas de todas as formas e feitios; queridos animaizinhos; cozinhas que, em tamanho grande, fariam inveja a qualquer uma do IKEA, e uma desconfortável sensação de overdose de côr-de rosa ficou pegada ao corpo. Quando cheguei a casa, entre o Noddy e o Ruca os anúncios do canal Panda reproduziam sem temor nem pudor os mesmos esquemas de sempre, os meninos brincam com armas, guerreiros, carros e construções, as meninas com coisas delicadas que reproduzem todo o imaginário feminino ligado ao doméstico, à sensibilidade, à beleza, ao ser belas e agradar aos outros.

Teimamos em “dizer” aos meninos que a guerra é boa e que eles têm de aprender a ser guerreiros; que há sempre um inimigo, e que há que defender o bem que somos sempre nós. Mais tarde, quando estão mais crescidos, ensinamos-lhes que o melhor ainda é a guerra preventiva, ataca primeiro e negoceia depois, muuuuuiittto depois...

Às meninas, continuamos a dizer que têm que ser delicadas, amorosas, cuidar das bonecas e das lides para mais tarde o continuarem a fazer nas suas casas, que serão lindas e arranjadas, espaço de amor e de família, objectivo imprescindível de uma lady, ou então para vingar na vida como mulheres têm de utilizar os mesmos esquemas de competição e autoridade que os seus iguais de sexo diferente.

Criamos e ajudamos as nossas crianças a crescer, e insistimos em torcer o pepino às nossas meninas e meninos em moldes que os asfixiam, e continuamos a validar formas de mundo que não nos fazem felizes enquanto individuos, enquanto povos e enquanto espécie.Não deve ser normal normalizar a guerra como um meio de relação, já seja nos mundos imaginários ou nos reais, como vimos por exemplo o governo de Israel (e separo propositadamente o governo da sua população) a utilizar crianças para escrever mensagens nos mísseis preparados para matar muitas crianças do outro lado. A relação com o outro/a, seja a nível individual ou colectivo, não pode ter como código principal a agressão e a dominação (nem demonização) física, psicológica, económica e social desse outro/a.

O cigarro arde sozinho no cinzeiro. O que nos vale é que a vida dá muitas voltas e ao contrário do que dizem, não fica sempre na mesma. Tanto homens como mulheres temos de ir (re)aprendendo a construir novas formas de mundo, poquito a poquito. Deixo a cozinha arrumada, apago a luz e deito-me à espera do sono.

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